#review47 – “Demian”, de Hermann Hesse

Livro: Demian

Autor: Hermann Hesse foi um escritor alemão que em 1923 naturalizou-se suíço. Nascido no seio de uma família muito religiosa, filho de pais missionários protestantes (pietistas, como é típico da Suábia) que tinham pregado o cristianismo na Índia. Estudou no seminário de Maulbron, mas não seguiu a carreira de pastor como era da vontade de seus pais. Tendo recusado a religião, ainda adolescente, rompeu com a família e emigrou para a Suíça em 1912, trabalhando como livreiro e operário. Acumula então sólida cultura autodidata e resolve dedicar-se à literatura. Travou contato com a espiritualidade oriental a partir de uma viagem à Índia em 1911 e com a psicanálise por meio de um discípulo de Carl Gustav Jung, em decorrência de uma crise emocional causada pela eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Editora: Record

Ano: 2016 (edição comemorativa dos 50 anos da obra no Brasil)

Páginas: 196

Sinopse: Emil Sinclair é um jovem atormentado pela falta de respostas às suas questões sobre o mundo. Ao conhecer Max Demian, um colega de classe precoce e carismático, Sinclair se rebela contra a convenções de seu tempo e embarca em uma jornada de descobertas. Publicado originalmente em 1919, este clássico, considerado
um divisor de águas na trajetória de Hermann Hesse, reflete os questionamentos do escritor alemão acerca da humana, com suas contradições e dualidades. Influenciado pelas ideias de Carl Jung, fundador da psicologia analítica, Hesse descreve o processo de busca do indivíduo pela realização interior e pelo autoconhecimento.

Os traços que refletem

Falar de Hermann Hesse não é falar de um escritor qualquer que viveu entre os séculos XIX e XX. Referir-se a uma de suas obras mais intrigantes é um desafio quase do tamanho de uma guerra. Porque Demian não deixa pistas de ser um simples romance. Ele faz alusão a coisas que jamais seriam postas em questão na mesa do almoço de uma família cristã atrelada a conceitos bíblicos. Hermann Hesse não escrevia para isso.

Em Demian, são entregues informações sobre ele mesmo, o que não é incomum, até que se chega à juventude de Emil Sinclair, o protagonista. Por exemplo: Hesse, além de escritor, era pintor, e há uma participação forte e mística deste talento em Sinclair no decorrer da história do meio para o fim. É como se suas pinturas fossem o eixo de tudo.

Também há um personagem, muito mais à frente na livro, que mostra claramente uma parte da vida de Hesse: Pistórius. Na biografia do autor consta que seus pais eram missionários protestantes e que ele já frequentou um seminário para se tornar pastor, mas não foi até o fim. A mesma história de Pistórius.

Nas orelhas da edição da editora Record de 2016, comemorativa aos 50 anos de sua publicação no Brasil, Rinaldo Gama explica isso: “O que se passa com Sinclair traduz a reverência que Hesse admitia em relação à psicanálise, ou, melhor ainda, à psicologia analítica. […] O processo que o narrador de Demian vivencia é, na terminologia analítica, o da individuação. Muitas de suas experiências refletem traços da biografia de Hermann Hesse.”

Demian, Sinclair e o cristianismo

Transformar a si mesmo não é fácil, principalmente quando, durante a vida toda, uma fé é plantada na cova funda da sua mente. Emil Sinclair conhecia dois mundos, e amava o mundo de seu lar, um mundo de luz, do bem. Quando comete seu primeiro crime – que nem mesmo era um crime –, vê-se preso em uma rede da qual nem sabe se vai mesmo escapar.

Max Demian, o filho de uma viúva, é tudo o que o garoto precisava para aprender que para lidar com o mundo – qualquer mundo – é preciso antes lidar consigo mesmo. E a partir de um firme laço com o garoto novo, Emil Sinclair passa a questionar diversas coisas que conhece desde uma tenra época.

É na escola, em uma aula de História Sagrada, que Demian faz com que Sinclair descubra que pode enxergar e controlar as ações das pessoas, que Caim tinha motivos plausíveis para matar Abel e que seu legado perdurava até aqueles dias. Sinclair aprende que as pessoas têm suas concepções de bem e mal, e que isso era diferente para cada um.

O misticismo nas mudanças

Então Sinclair cresce, muda de cidade para estudar e enfrenta suas trevas perante a chegada quase que precoce da maior idade, descobrindo ainda mais de si e sofrendo as transformações que não achava que sofreria. Descobre pessoas e, nelas, sua própria fé e a paixão com a qual sonhara sentir por anos, da maneira mais inusitada.

Falando em sonhos, Sinclair tem suas próprias profecias nos domínios de Morfeu*. Pássaros saindo de ovos que eram o mundo, mulheres com traços masculinos, guerras… Tudo se refletia em seus quadros. No decorrer da história, ele encontra oportunidades para expor esses sonhos e preceitos a diversas pessoas que encontra pelo caminho de vida. E tudo tem sua magia incumbida.

No contexto histórico

Hermann Hesse escreveu Demian aos pés da Primeira Guerra Mundial que, para ele, não foi uma das épocas mais fáceis de se viver. Nesta época, o autor estava instalado na Suíça, mas sua naturalidade é alemã. Hesse também passava por uma crise no casamento com Maria Bernoulli. Demian, assim como outras obras, rendeu a Hesse o Prêmio Goethe e o Nobel de Literatura em 1946.

Consideração de leitor

Demian foi o primeiro livro do Hesse que eu li e não tenho a intenção de parar nele. É muito bom descobrir que a parte clássica da literatura tem tanta riqueza quanto se imagina. Conhecer a mente do autor através da história, principalmente de personagens como Sinclair e Demian, é, como leitor e escritor, estudar a maneira como as coisas fluem na mente de um homem talentoso que viveu há tanto tempo.

*Morfeu é o deus dos sonhos na mitologia grega. Nesta língua, seu nome significa “a forma”, pois teria a
habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas.
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